sexta-feira, janeiro 21, 2005

Miguel Torga

Dia 17 passou uma década sobre a morte de um dos grandes vultos das letras portuguesas. Por ele e, acima de tudo, por nós que perdemos a genialidade da sua pena, aqui fica a lembrança.

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que de tou.
Mostro aos olhos que não te disfugura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Coimbra, 16 de dezembro de 1963

Miguel Torga, "Antologia Poética"

JB


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