Back to basics...
A participação dos portugueses no acto eleitoral de ontem constituiu um sinal forte de consciência cívica. Constituiu, em primeiro lugar, uma aceitação sem reservas da decisão de Jorge Sampaio de dissolução da AR. A direita populista que nos (des)governava não percebeu que nesse dia, provavelmente ainda mais do que hoje, uma esmagadora maioria de portugueses - de direita ou de esquerda - suspirou de alívio. Decidiu a ex-maioria adoptar a tese da cabala: Sampaio, os banqueiros, os jornalistas esquerdistas (como José Manuel Fernandes...) e esses traidores, reputados trotskistas e membros da "brigada do reumático da IIIa República" que são Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira e outros, tinham-se juntado num conluio sem precedentes para barrar a via messiânica que nos era prometida pela dupla Santana-Portas!
Quer-me parecer que quem resiste a ver a realidade é sempre chamado a terra firme. A resposta dos portugueses foi dura e cabal. Não, Dr. Portas, a maioria dos portugueses não quer o seu modelo de sociedade, falsa democracia-cristã, misto de populismo e conservadorismo arcaico. Não, Dr. Santana a sua vitimização não funcionou, a campanha de calúnias e boatos também não; não chega para governar um país. Precisa-se de seriedade, de responsabilidade, de visão e de rumo. Visivelmente estes são conceitos que lhe são estranhos.
Ganhou, portanto, o PS com maioria absoluta. Finalmente dependemos apenas e só de nós próprios. Não haverá desculpas em caso de insucesso. Partimos com a vantagem de não ter feito promessas impossíveis de cumprir, mas com a desvantagem de, em muitos dos assuntos fundamentais para o país, não existir uma ideia clara das soluções que virão a ser propostas. Há agora que formar um governo de gente capaz, que dê garantias de uma boa governação.
O PSD de Santana e Durão (não, os portugueses não se esqueceram de si!) teve um péssimo resultado. Quem os visse na declaração final, pensaria provavelmente o contrário. Santana a atacar o Sr. Silva e a posicionar-se para não se deixar expulsar da liderança do partido sem contrapartidas. Chama-se a isto instinto de sobrevivência. Ou será falta de responsabilidade? Desejo força e coragem a Marques Mendes (um político com uma visão para Portugal) ou a outros sobreviventes do PSD-histórico para acabarem de vez com a bandalheira em que se transformou o maior partido da oposição.
Excelente resultado o do PC (que se transforma em CDU com os falsos verdes para as eleições). Jerónimo ultrapassou a imagem de dinossauro do leninismo e no seu jeito simples e honesto conseguiu, pela primeira vez desde há muito, estancar a hemorragia eleitoral comunista. Espera-se que depois de estancar se possa ganhar fôlego para reformar, certo?
O PP e o seu líder falharam em toda a linha. A minha única dúvida é se porventura os populares achavam mesmo que conseguiriam atingir os objectivos por eles próprios estipulados durante a campanha. Se a resposta é sim, devem com certeza viver noutro país ou quiça noutro planeta. Se a resposta é não, só me resta achar que a cena tragico-cómica da declaração de Adeus de Portas estava há muito preparada e revela alguma inteligência política em comparação com o associado PPD, boa capacidade de encenação e sobretudo muita falta de credibilidade. A tirada sobre os trostskistas e os democratas cristãos ficará para a História... Parece-me é que nem o PP é democrata-cristão, nem o BE é trostskista mas deve ser erro meu...
A subida do Bloco foi tremenda. Hoje não constitui um perigo para o PS mas se as coisas começarem a correr mal no governo -longe vá o agouro - os bloquistas poderão vir a ser os principais beneficiados. Por enquanto trata-se de uma força de protesto, inteligente, viva e demagoga. Quando chegar a altura de avançar com verdadeiras propostas de governo, aí sim veremos se as ideias light do BE ganham consistência e se se coadunam com a responsabilidade de governar um país.
Dos pequenos partidos não reza a História, mas deixem-me deixar uma palavra de apreço ao MRPP que mantém o seu eleitorado (malgré a fuga de um dos seus ex-militantes para Presidente da Comissão Europeia) e que revela por vezes uma maior coerência ideológica (aberrante é certo, mas coerente) que alguns dos electrões livres do BE.
Será que Sócrates se inspirou da grande máxima maoista e garcia-pereirista, antes de 20 de Fevereiro: Ousar Lutar, Ousar Vencer?
TS

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