segunda-feira, janeiro 31, 2005

histórias de bruxas

A minha afilhada, com a sabedoria que só temos aos três anos e meio, gosta de bruxas. Gosta de histórias de bruxas e gosta do medo que tem ao ouvi-las.
Este Carnaval, disse-me ela ontem, vai vestir-se de fada madrinha má.

Eu, na ignorância que só temos depois de perdermos a sabedoria da infância, tive alguma dificuldade em compreender o gosto dela pelas bruxas ou pelas fadas madrinhas más (tive ainda mais dificuldade em encontrar uma boneca/bruxa para lhe oferecer, porque bruxas, disseram-me, não são brinquedos para meninas daquela idade).

Tentei, por diversas vezes, nas histórias que conto à minha afilhada, que as bruxas más se convertessem à bondade e houvesse um final feliz. Mas ela não gosta particularmente de finais felizes.

Vem isto a propósito de uma conversa que tive um destes dias (a despropósito como todas as boas conversas) sobre a maldade.

Quando perdemos a sabedoria da inocência, temos muita dificuldade em assumir a nossa propensão pela maldade. Com a maldade posso eu bem, a minha questão é mesmo com a mesquinhez, esse sentimento que é obstáculo aos finais felizes.

Outra sabedoria, a que chega depois dos oitenta, tentou um dia explicar-me que o mundo, ao contrário daquilo que eu pensava, não estava dividido entre "os bons" e "os maus".

Levei mais de duas décadas a compreendê-lo mas ainda estou a tentar encontrar o ponto de equilíbrio entre os extremos.

CA

A era dos choques

A vinda de José Sócrates a terreiro defender um choque tecnológico, criou uma nova moda em Portugal.
Santana Lopes apressou-se a apresentar o choque de gestão para salvar o País e Paulo Portas, como bom democrata cristão, defendeu ontem um choque de valores.
Aguarda-se com expectativa o choque dos outros partidos.
Uma coisa é certa. O próximo Primeiro-Ministro, terá no choque a sua base governativa!
JB

Michael Jackson

O homem do nariz em obras começa hoje a ser julgado. Como qualquer outro réu, diz-se inocente. Está bem, a gente até aceita, até prova em contrário. Mas, já agora, que a verdade se descubra e que o dinheiro e a fama não comprem sentenças. Essencialmente quando falamos deste tipo de crimes.
JB

domingo, janeiro 30, 2005

Preconceitos

Nunca gostei de domingos. Desde pequena. Nessa altura, domingo significava catequese e era, por isso, o principal culpado de eu perder a "Candy, Candy"!
Mas agora dou por mim a pensar em acabar com esse preconceito. Afinal até há domingos agradáveis. Como o de hoje.
JB

sábado, janeiro 29, 2005

A genialidade de um louco

O "Aviator" está excelente. Depois de "Gangs of New York", Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio confirmam porque são uma dupla de sucesso.

O filme sobre os últimos 20 anos da vida de Howard Hughes, excêntrico milionário apaixonado por aviões (e mulheres) da América dos anos 30, que sucumbiu à loucura nos últimos dias da sua vida, está (justamente) nomeado em 11 categorias para os Oscares de Hollywood.

Decididamente, um filme a ver!
JB

descobertas

esta cidade descobre-se devagar
como as pessoas
umas vezes com rumo certo
outras, sem sentido de orientação

mas o importante são mesmo as descobertas
da cidade e das pessoas

às vezes interessa pouco o destino, na cidade
a maior parte das vezes interessam mais as pessoas

gosto de pessoas, já o disse.


CA


sexta-feira, janeiro 28, 2005

Assim como?

"Lá vai o português,
Diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.
Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao passo da História, carregando-a de facto, e que remédio - índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea de sol-a- sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ter ele depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda.)
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitísssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como? "
Extracto de Retrato do Português Geral de José Cardoso Pires
JB

É o que dá não ter TV Cabo...

A SIC vai passar, hoje e manhã, a minissérie "Até Amanhã, Camaradas" de Manuel Tiago, ie, Álvaro Cunhal.
Tenho pena de não poder ver. Não por ser comunista (longe de mim!) mas por gostar de ler um bom livro e por ter curiosidade de ver como foi adaptado para a tela.
Resta-me ir ver o "Aviator"...
JB

Também há arrogantes bons!

O Chelsea ganhou ontem ao Manchester United, qualificando-se para a final da Taça da Liga Inglesa de Futebol.

Honra seja feita ao José Mourinho. Acusado, por terras de Sua Majestade (e Lusas, já agora!) de ser arrogante, assobiou para o lado e foi em frente com o seu trabalho. Afinal é para isso que lhe pagam! O resultado é que se vê. Está perto de ganhar um título que foi uma miragem para o Chelsea nos últimos 50 anos.

Pensando bem, até gosto da arrogância dele! Contrariamente à de muitos que por aí andam, a dele dá resultados positivos.

JB

Verdi - 104 anos depois

Ontem as celebrações foram outras.
Por isso o post só chega hoje.

Giuseppe Verdi
10/10/1813 - 27/01/1901

CA

ora aí está

Os peixes voam
Da direita para a esquerda
Para sempre

Se eu for para aí,
pode ser que não queira
voltar. Eventualmente.

The Galarzas e as suas ramificações fazem parte das minhas blogo-leituras obrigatórias.
Porque sim.

CA

Boas notícias

Finalmente houve acordo! Vamos ter direito a um frente a frente entre Santana Lopes e José Sócrates no dia 3 de Fevereiro, transmitido em simultâneo na SIC e na 2.
Mas melhor que isso é terem-se lembrado de nós! Passará em directo na RTPi e na SIC internacional.
Não quero perder! Para recordar aqueles domingos em que o populismo e o pragmatismo (na mesma ordem em que os nomes foram colocados no primeiro parágrafo) se degladiavam na RTP1.
JB

Amsterdam...

É o título da minha obra preferida de Ian McEwan.
Mas não é por isso que escrevo...
Desta vez vou viver a cidade em pleno! Já lá tinha estado, outras vezes, mas agora vai ser diferente... pela imensa diferença que alguém faz!
É assim em todas as cidades, em todos os sítios... sempre que alguém está!

Até breve!

BC

day after

li, recentemente, qualquer coisa sobre insónia
lembro-me que achei imensa piada (ao texto, não à insónia)
para além das luminosas sugestões sobre "o que fazer em caso de insónia" do tipo: aproveitar ao máximo o tempo para organizar uma quantidade infindável de coisas comezinhas - como ideias ou armários (sim porque há por aí muitas ideias comezinhas e muitos armários desarrumados) - havia uma referência a como é démodé contar carneirinhos e apresentava-se uma lista alternativa de coisas que se podem contar, como sejam as pessoas com quem se passaram noites sem sono

o meu problema, quer com a insónia, quer com as sugestões luminosas, quer com as listas alternativas, são mesmo as suas consequências no day after
conheci alguém que dizia com frequência que "o que se faz de noite, de dia aparece"
pois, por isso mesmo reservo-me o direito de manter as ideias com um mínimo de ordem, os armários (com e sem esqueletos) minimamente arrumados e não conto as noites sem sono

CA

PS. Há por aí gente satisfeita por não me ter encontrado logo pela manhã. Também há por aí quem me tenha encontrado e nem tenha dado por isso

virtudes e virtuosismos

gosto de pessoas

há pessoas que tem a virtude, talvez pela sua simplicidade, de me fazer sorrir
há pessoas que pela sua arrogância, disfarçada num virtuosismo bacoco, tem o condão de me irritar

encontrei as duas, logo pela manhã
a uma delas não me apetece sorrir

CA

quinta-feira, janeiro 27, 2005

As Farpas no Sec XXI

"Acordo entre PSD e PP está por um fio. Ambos concordam que basta mais uma "farpa" do aliado para a amizade forçada cair por terra".
Trocando por miúdos, ambos os partidos estão fartos de engolir sapos vivos, mas a vontade e a esperança de voltar a governar movem montanhas! Se tivessem mostrado esta força nestes últimos tempos de governação...
JB

Vicissitudes da diáspora

O problema de ser emigrante é que por vezes a proximidade de um telefonema deixa-se engolir pelo preconceito da distância. Pode soar a esquecimento, mas não passa de um estúpido desleixo e de uma apatia que não têm qualquer razão de ser. Os laços fortes dificilmente se desfazem e, por isso, acho que estou mais ou menos desculpada... será?...
JB

Auschwitz

" I have tried to keep memory alive, I have tried to fight those who would forget. Because if we forget, we are guilty, we are accomplices "

Elie Wiesel , sobrevivente de Auschwitz, prémio Nobel da Paz em 1986

TS

sometimes

There's a storm outside
And the gap between crack and thunder
Crack and thunder
Is closing in Is closing in
The rain floods gutters and makes a great sound on concrete
On a flat roof is a boy leaning against a wall of rain
Aerial held high calling 'come on thunder come on thunder'
Sometimes, James, este fim-de-semana, quando a música voltar lá a casa

CA

coisas de fim-de-semana

é quinta-feira
e porque amanhã é sexta
já fiz a minha lista de coisas-para-fazer-durante-este-fim-de-semana-que-tarda-em-chegar

voltar a ter música em casa está no topo da lista
o resto, virá por acréscimo
CA

ainda o Calimero

fiquei muito satisfeita por haver por aí gente que também se lembra do Calimero (também gosto da Abelha Maia e do Topo Gigio)

CA

intangibilidades

"Things aren't all so tangible and sayable as people would usually have us believe; most experiences are unsayable, they happen in a space that no word has ever entered (...)"
Rainer Maria Rilke, Letters To A Young Poet
CA

Auschwitz

Por saber que dia é hoje
recuso-me a ver as transmissões televisivas, a ler os mails ou a olhar as fotografias
Porque, para mim, a memória faz-se também com o silêncio
CA

Auschwitz "nunca mais".

Faz hoje 60 anos que os poucos que escaparam ilesos (bem, isto é mais uma força de expressão!), sairam do campo de horror de Auschwitz.
Pelas 14h30, alguns dos sobreviventes voltam ao "inferno na terra" para relembrar os que não foram escolhidos para "trabalhar" e acabaram nas câmaras de gas, fuzilados, sujeitos às experiências médicas, enter outras barbaridades.
A merecida homenagem dará em directo em muitas televisões da Europa. Não quero perder. E espero que muitos espíritos exacerbados por este mundo fora também vejam, para que o século XXI não volte a repetir os mesmos erros.
JB

A Águia

Parece que o jogo de ontem à noite foi um dos melhores dos últimos tempos. Emoção, golos, espectáculo, como diria o Jorge Perestrello: " é disto que o meu povo gosta!".
Como não pude assistir ao jogo, já li e reli todos os jornais desportivos para assim, poder saborear a vitória dos encarnados. E durante estas leituras, dei comigo a pensar:
- o Benfica durante toda a época habituou-nos a um nível exibicional de qualidade duvidosa - to say the least.
- ontem jogou bem e ganhou nos pénaltis com sorte.
- apesar das sofríveis exibições, o Benfica é o único clube português que ainda pode aspirar a ganhar todas as competições esta época.
- será isto sorte do italiano mal-amado pela massa associativa benfiquista? Será que mais tarde ou mais cedo a equipa provará que de facto não joga nada e será sucessivamente eliminada das diferentes provas?
- ou será que, apesar de tudo, e tendo em conta a inferioridade qualitativa do plantel vermelho se comparado com Porto e Sporting, há algum mérito do italiano que prefere não arriscar, ganhar por meio a zero, fazer substituições que não agradam aos adeptos, mas que se vai aguentando?

A eterna dúvida do futebol - e da vida - serão os pequenos acontecimentos a sequência lógica de uma corrente de fundo, ou será que esta corrente é apenas uma sucessão de pequenos acontecimentos...

TS

aviso à navegação

primeiro estranha-se e depois entranha-se
e ganha vida própria
(eu sei que me tinham avisado)
mas já não há volta a dar

CA

Coisas da bola II

Snif! Snif!
De qualquer forma, obrigada amigo Alfredo, pela actualização permanente. Deu um jeitão, não só a mim, mas a alguns outros que também estavam em pulgas mas não tinham informadores. Esta coisa do blog dá os seus frutos, sim senhor!
JB

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Calimero

Hoje, a completo despropósito, reencontrei o Calimero.
Como ainda sou incapaz de colocar fotografias neste blog, resta-me apelar à memória visual.
Esse pinto (que não é certamente do Sporting) lembrava-nos umas injustiças que por aí se fazem.
Eu gosto muito do Calimero e gosto muito das pessoas que tem memória.
CA

Coisas da bola

Estou assim um bocadito para o irritada. Com tantos furos na agenda, então não é que tenho um compromisso logo à hora do jogo do Sporting!
Não é que eles precisem de mim para ganhar, mas é daquelas coisas... a gente sempre gosta de dar o nosso palpite em frente à televisão, numa tentativa telepática de comandar os pézitos dos jovens.
Resta-me esperar que alguém tenha a simpatia de me ir informando dos golos. Dispenso nota dos cartões amarelos, das faltas, das explusões, dos erros da arbitragem, enfim, dessas coisas todas que só enobrecem o futebol. Também parece mal estar sempre com o telefone a fazer ruidos!
JB



Mais apitos do que árbitros...

Relata a Lusa que mais árbitros da bola estão neste momento a ser ouvidos no âmbito da operação "Apito Dourado". Vários... embora a agência não consiga adiantar o número nem as associações de futebol a que pertencem.
Quantos serão?
Quem será?
Confesso que estou cada vez mais preocupado... Será que vão deixar apitar o do jogo de logo à noite?!

BC

"Sa Wat Di"

Faz hoje um mês que a catástrofe se deu na Ásia. Talvez os mortos nunca venham a ter um número que os defina, mas foram muitos. Fala-se em 280 000...
Custa a acreditar como é que um mar tão maravilhoso é capaz de fazer tanto mal. Nos dias seguintes à catástrofe, a televisão passou imagens de dezenas de corpos a serem retirados de um Centro Comercial em Patong (Phuket), e foi aí que me consciencializei da nossa impotência face às forças da natureza. Em Maio último, foi nesse dito Centro Comercial que comprei os "recuerdos" da praxe e para mim, ele ficava tão longe da linha do mar! Como pode este ter lá entrado com tanta fúria e força para matar?...
A reconstrução de casas e infraestruturas levará alguns anos a fazer-se, mas a reconstrução psicológica dos que sobreviveram essa, precisará de muito mais tempo para se concretizar. E para isso, não há dinheiro que ajude...
JB

Ficar mal no retrato...

"A recente chegada a muitas juntas de freguesia de todo o país de um retrato oficial do primeiro-ministro demissionário Santana Lopes está a espantar e a indignar vários autarcas país fora."

É verdade que o PS quer ganhar as eleições, mas quer-me parecer que o nosso primeiro-ministro gestionário e os seus acólitos fazem muito mais por isso que o próprio partido da rosa.
Palavras para quê? É um artista português com certeza!


TS

Eurovisão

Recebi um e-mail (eu e mais umas largas centenas de pessoas) a convidar-me para uma reunião com uma tal de Ruslana.
A dita Ruslana terá sido a vencedora do Festival da Eurovisão em 2004.
Dei comigo a lembrar os tempos de infância em que o Festival da Canção era um verdadeiro happening. Escrevia-se numa folha - que seria religiosamente guardada depois - o título de todas as canções e intérpretes e aguardava-se, ansiosamente, a votação de cada distrito, feita pelo telefone e, na maior parte dos casos, em más condições de recepção. O cerimonial repetia-se depois, à escala europeia. Os modestos pontos que Portugal lá ia arrecadando eram uma mancha no orgulho nacional. Outros tempos...
Há muito que não vejo o Festival da Canção e a minha Eurovisão agora é outra (embora a pontuação de Portugal seja sempre modesta). Para além disso nunca ouvi falar da Ruslana.
CA

Nostalgias...

Em memória dos bons tempos de Coimbra e do inesquecível "Diligência", poiso de tantas noites, apeteceu-me relembrar o Boris Vian ... Sim! Porque nem só de fado se faz um estudante de Coimbra!
Le déserteur
Monsieur le président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps.
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir.
Monsieur le président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens.
C'est pas pour vous fâcher,
Il faut que je vous dise,
Ma décision est prise,
Je m'en vais déserter.
Depuis que je suis né,
J'ai vu mourir mon père,
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants.
Ma mère a tant souffert
Qu'elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers.
Quand j'étais prisonnier,
On m'a volé ma femme,
On m'a volé mon âme,
Et tout mon cher passé.
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes,
J'irai sur les chemins.
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France,
De Bretagne en Provence
Et je crierai aux gens:
«Refusez d'obéir,
Refusez de la faire,
N'allez pas à la guerre,
Refusez de partir.»
S'il faut donner son sang,
Allez donner le vôtre,
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le président.
Si vous me poursuivez,
Prevenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer.
Boris Vian, 15 Fév. 1954
JB

a máquina fotográfica

Ontem vivi de memórias.
Virei páginas e páginas de fotografias.
As memórias, na maior parte dos casos, não se fizeram do registo da imagem.
Fizeram-se do registo da minha ausência.
Fizeram-se dos muitos porquês que a justificaram.
Para a próxima fico na fotografia. Acabaram os porquês.

CA

o frango

Quando cheguei a esta parte do mundo (num tempo que me parece demasiado distante) não se podia comer frango. Eram as dioxinas. Na realidade havia muito que não se podia comer e as prateleiras dos supermercados estavam mais vazias que o habitual.
Agora já comemos frango. Ontem comemos frango. Com a desculpa do frango a noite de quinta-feira foi do best, entre memórias e projectos.
Mérito ao cozinheiro e vivas às amizades que vamos construindo ou solidificando.
CA

Tanto mundo...

Dando uma vista de olhos ao meu Atlas e com a displicência do Dali (o meu fiel touro-peluche, para os estranhos) chego à conclusão que a vida é curta demais para as distâncias que quero percorrer...
A riqueza da vida passa pelo amor, é verdade. Pela realização profissional, também é verdade. Mas passa também pela mais valia cultural e humana que adquirimos no simples acto de partir para fora do nosso "ambiente", para o desconhecido, para outro país
Para isso é preciso ousar, ir à aventura. Para podermos comparar, criticar, elogiar. Para podermos, em último recurso, considerar que a vida não é feita apenas do "eu" e de quem nos rodeia. Há muito mais para além de nós.
Que chatice Dali! Tanto mundo e tão pouco tempo!
JB

terça-feira, janeiro 25, 2005

memória

as caras são outras mas a identidade é a mesma
aos que fizeram e fazem este caminho

"É tão bom
Sentir a ventania lá fora
E a calma cá por dentro!

Ou o contrário disto:
Vento e raiva cá por dentro, e lá fora, uma calma
Que mais parece um gesto ou um olhar
De Cristo

Ou, então,
Chegar a esta confusão
De não saber se o vento é lá fora
Se é cá por dentro."

[Sebastião da Gama]

passos perdidos

Em menos de uma semana de existência na blogosfera registo, com agrado, as palavras de incentivo de amigos, conhecidos e de other acquaintances*.

Na eminência de propor a criação de um Conselho Editorial** a um certo blogista que descontextualiza apenas lá para os lados do oceano Atlântico, e em resposta às vozes que me censuram por citar a mais e escrever a menos, pareceu-me por bem transcrever uma troca de e-mails que tive esta tarde. Porque até quando é pouco sabe sempre bem:

e-mail 1: "imagino que estejas cheio de trabalho mas manda-me o link do site onde se vê se fomos ou não linkados..."

e-mail 2:"www.technorati.com"

e-mail 3: "thanks! bjs"

e-mail 4: "Desculpa a resposta telegráfica, mas estou atascado...."

e-mail 5: "não faz mal. já estou habituada à tua indiferença (que respeito e compreendo).Bjs"

e-mail 6: "Vai-te LIXAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRR!!!!!! :D bjs"

e-mail 7: "já fui e não gostei....."

email 8: ";) palerma."

e-mail 9: "realmente da indiferença à ofensa é um passo...."

e-mail 10: ":D"
_________
* persons whom one knows but who is not a particularly close friend
** aqui entendido como censura


CA

Esta tarde nevou.
Durante a noite também.
É mais bonito quando chega de madrugada.
É melhor quando a madrugada é o final da noite.

CA

Conta de solidariedade Passerelle

O surto de gripe em Portugal está, segundo notícia do 24 Horas a dar cabo do negócio no clube de strip-tease Passerelle. Tudo começou com a ida de algumas bailarinas de férias de Natal ao Brasil que trouxeram na bagagem (e no organismo) o vírus.
Há 20 meninas a gazetar!
E o mais grave, segundo o dono do clube é que "não avisam que estão doentes, são umas flores de estufa e depois tenho furo nos espectáculos. De uma constipaçãozinha fazem um drama e dizem que não querem trabalhar".
Mas não acaba aqui o drama. Ainda segundo o patrão, há que contar com o facto de "os clientes em vez de ficarem duas horas ficam uma porque vão lá para ver as raparigas e descobrem que não há, (...) consomem-me menos bebidas e isso obviamente afecta-me o negócio".
Perante isto, que fazer? Talvez uma campanha nacional de solidariedade para com o infeliz dono do negócio, que isso da gripe é, pelos vistos, manha do corpo de bailado!
JB

O meu descontexto

Segundo a TSF on line "Um inquérito sociológico, esta terça-feira publicado, revela que 86 por cento dos jovens portugueses não quer saber de grupos sociais, cívicos ou políticos. A explicação para esta fraca mobilização é simples: falta de interesse. É pelo menos o que afirmam 35 por cento dos inquiridos, enquanto 15 por cento queixa-se de falta de tempo. Um total de 51 por cento dos jovens portugueses diz que não pretende pôr a cruzinha para ajudar a decidir o futuro do país. Os mais novos consideram que existem coisas mais importantes para fazer no dia das eleições. Esta juventude não balança nem para a esquerda nem para a direita. É o que afirmam 47 por cento dos inquiridos, mesmo assim 22 por cento dos jovens diz que é de direita e 18 de esquerda. Este estudo para o Observatório Português da Juventude foi encomendado à Markteste e realizado na primeira semana de Janeiro. Foram feitas 814 entrevistas e o erro de amostragem 3, 43 por cento. "

Estes resultados dão que pensar... De quem será a culpa? Da classe política, dirão muitos. Mas não só, diria eu.
A consciência cívica e política devem começar em casa, na escola, no dia a dia. Se fizessem o mesmo inquérito aos pais dos jovens entrevistados, muito possivelmente as percentagens andariam a par.
Os 51% de abstenção ou voto em branco, quando falamos do rumo a dar ao país e quando o que está em jogo é a atitude dos futuros quadros da nossa sociedade, são alarmantes.
Que coisa! Eu também sou jovem (já fui mais, está bem!), até pertenço à tristemente apelidada "geração rasca", e sempre me interessei pela vida cívica do país! Se calhar sou eu que sou marginal...
JB

2046

Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Vale pela estética, pelo ambiente (fumadores acautelem-se antes do filme, pois a vontade de fumar não vos deixará durante os 120 minutos de projecção), pelos actores, pela forma como o realizador joga com as noções de espaço e tempo, mas vale, sobretudo, pela análise da vida sentimental. Com distanciamento, com crueldade por vezes, com algum pessimismo, mas com tanta, tanta verdade...
A história de um jornalista que abandona Singapura por culpa de um desgosto sentimental decidindo então ir viver para um hotel rasca em Hong Kong. Decide então escrever um livro, chamado 2046, passado no futuro com toques de ficção científica, em que relata as diferentes histórias de Amor - algumas nem de Amor serão mas apenas histórias de relações - ocorridas nos anos sessenta.
Não percam.
TS

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Silvia...?

"What light is light, if Silvia be not seen?
What joy is joy, if Silvia be not by?
Unless it be to think that she is by
And feed upon the shadow of perfection...
Except I be by Silvia in the night,
There is no music in the nightingale;
Unless I look on Silvia in the day,
There is no day for me to look upon;
She is my essence, and I leave to be,
If I be not by her fair influence
Foster'd, illumined, cherish'd, kept alive."

in Shakespeare, Two Gentlemen of Verona: Act3, Scene 1

BC

Cenas da vida do Pepe Rápido

O incansável PSL-Primeiro-ministro fez na tarde de ontem, em Vila Nova de Poiares, onze inaugurações e assinou sete contratos-programa. Uff!
E ainda teve tempo de ralhar com o Presidente da República, já no papel de incansável PSL-candidato-a-Primeiro-Ministro, por achar que este deve obrigar Sócrates a fazer outro debate a dois com ele. Reconhecido o esforço, não vale a pena comentar....
JB

Siena, Itália...

Foi por lá que andei este fim de semana, e é por lá que espero passar muitos dos que por aí virão... Tantos quanto puder, na verdade. Não pela cidade em si - que aliás é magnífica -, mas por quem lá irá estar...
Siena é uma cidadezinha a sul de Pisa, com traços e cores medievais, que se percorre de uma ponta à outra em 15 minutos. Por lá, a simpatia que se dá é recebida em dobro!
Para quem quiser, vale a pena visitar a Piazza del Campo, a Catedral (Il Duomo), o Batistério e a fortaleza medieval.
Recomenda-se a visita! Talvez nos encontremos por lá, quem sabe...!

BC

A condição sine qua non do valor simbólico ...

Posse nas escadas
A nova direcção da AAC vai tomar posse ao ar livre.
A Faculdade de Farmácia, quando soube que o reitor não é convidado, decidiu não ceder o espaço. As escadas monumentais são o cenário escolhido para a cerimónia de tomada de posse dos novos corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra (AAC), liderados por Fernando Gonçalves.
Trata – se, todavia, de uma solução de recurso, decidida no fim–de–semana, após a recepção, sexta–feira, de um fax a “desmarcar” o espaço, na Faculdade de Farmácia, pedido há mais de um mês. Em causa a ausência de convite ao reitor “Na universidade, funcionamos como uma instituição”, prologa o presidente do conselho directivo da Faculdade de Farmácia, que recorda a tradição, “que vem desde o 25 de Abril”, de convidar o reitor, “até para homologar a posse”.
Adriano Baptista de Sousa sabe que esta homologação não é legalmente necessária, mas “tem reconhecido valor simbólico”. (...)

in Diário As Beiras, 24 de Janeiro de 2005
JB

Ainda a Super Liga

Braga 2-0 Académica
Nacional 0-2 Boavista
Setúbal 4-0 Penafiel
Guimarães 0-0 Moreirense
Benfica 0-2 Beira-Mar
Rio Ave 2-1 Estoril
Marítimo 0-0 Belenenses
Gil Vicente 0-3 Sporting
União de Leiria 0-1 FC Porto

Porque nem só de Sporting se fez a 18ª Jornada

CA

A SuperLiga

Sá Pinto no seu melhor! Parabéns, Sporting!
JB

questões de agenda

U2 realinham datas da digressão mundial
Santana adia debates com líderes do PP, PCP e Bloco
títulos do Jornal de Notícias de 24/01/2005

CA

domingo, janeiro 23, 2005

Um gesto simples

Uma adolescente francesa, neta de uma das vítimas dos campos de concentração Nazis, decidiu honrar a memória da avó e de todos os judeus que tiveram o mesmo fim no Holocausto escrevendo num caderno a numeração de 1 a 6 milhões. Tocante, no mínimo...
JB

23/01/1905

Há 100 anos faleceu Rafael Bordalo Pinheiro.
Registamos a data e recordamos a obra.
Não ficámos surpreendidos com a sua actualidade.


CA

sexta-feira, janeiro 21, 2005

A tomada de posse

O "discurso da liberdade" do reeleito Presidente dos Estados Unidos é preocupante.
O uso da palavra liberdade 27 vezes em apenas 20 minutos, não deve ser considerado um mero lapso do redactor do texto, mas sim uma mensagem carregadamente ideológica mais virada para o resto do mundo que propriamente para aqueles que o elegeram. Deixa-me angustiada pensar que estamos à mercê de uma criatura que não mete de parte o uso da força para levar a liberdade aos Estados que ele considera amordaçados... Depois do caso de sucesso que está a ser a libertação do Iraque, quem se segue?
Só nos resta pedir que Deus nos ajude já que a maioria do povo americano não o quis fazer....
JB

outra dança

Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você

E vai levando um pé na bunda vai
Vai por olho da rua e não volta nunca mais
E vai saindo vai saindo sai
Com uma mão na frente e a outra atrás
E bota a mão no bolsinho (Não tem nada)
E bota a mão na carteira (Não tem nada)
E bota a mão no outro bolso (Não tem nada)
E vai abrindo a geladeira (Não tem nada)
Vai porcurar mais um emprego (Não tem nada)
E olha nos classificados (Não tem nada)
E vai batendo o desespero (Não tem nada)
E vai ficar desempregado

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O grande Chico...

Valsinha
Vinicius de Moraes - Chico Buarque/1970

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


TS

escolhas

até ver
as escolhas de CA
os amigos e os eleitos

A Bordo
Amor e Ócio
Cibertúlia
Margens de Erro
No quinto dos impérios
O país relativo
Tangeria Doce



não gostar

Se há uma coisa que não gosto é da indiferença
Se há uma coisa que não gosto é de excesso de atenção
Se há uma coisa que não gosto é de chegar atrasada
Se há uma coisa que não gosto é de esperar
Se há uma coisa que não gosto é de mensagens sem resposta
Se há uma coisa que eu não gosto é de respostas sem mensagem
Pensando bem, há imensas coisas de que não gosto.
CA

carteiro

Um destes dias perguntaram-me por ti
Disse que finalmente tinhas compreendido
No dia seguinte chegou correio
Compreendes se eu não responder?
CA

Miguel Torga

Dia 17 passou uma década sobre a morte de um dos grandes vultos das letras portuguesas. Por ele e, acima de tudo, por nós que perdemos a genialidade da sua pena, aqui fica a lembrança.

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que de tou.
Mostro aos olhos que não te disfugura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Coimbra, 16 de dezembro de 1963

Miguel Torga, "Antologia Poética"

JB


humanidades

"quando nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa, salvar a humanidade"

Almada Negreiros

CA

Vai ter tudo

O medo vai ter tudo / fantasmas na ópera / sessões contínuas de espiritismo / milagres / cortejos / frases corajosas / meninas exemplares / seguras casas de penhor / maliciosas casas de passe / conferências várias / congressos muitos / óptimos empregos / poemas originais / e poemas como este / projectos altamente porcos / heróis / (o medo vai ter heróis!) / costureiras reais e irreais / operários / (assim assim) / escriturários (muitos) / intelectuais ( o que se sabe) / a tua voz talvez / talvez a minha / com certeza a deles (...)"

Alexandre O'Neill, O Poema Pouco Original do Medo, in "Abandono Vigiado", 1960

CA

PRIMEIRO DESCONTEXTO

Não marcámos no calendário o dia em que nos conhecemos.
Não marcámos no calendário a altura exacta em que começámos a trocar mensagens ou e-mails.
Não marcámos no calendário a data do primeiro café, do primeiro jantar, da primeira viagem, da primeira festa.
Achámos, por acaso e sem malícia, que era altura de por em ordem estes descontextos de cumplicidades e de diferenças... muito ao sabor das nossas esperanças e inquietações, das alegrias e das tristezas, dos afectos e das paixões, dos livros, dos discos e de todas as coisas que nos movem e nos fazem ser quem somos, como somos, ou como gostaríamos de ser.
É de olhares que vamos fazer estes descontextos. Olhares diferentes que temos sobre as coisas. Olhares, gostos e sabores que queremos partilhar, quanto mais não seja entre nós os quatro.
Decidimos marcar, a partir de hoje, presença nesta tertúlia pois é em momentos simples e singulares que apreendemos a essência da nossa vida e da dos outros.

BC/CA/JB/TS

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