terça-feira, outubro 10, 2006

Festa brava

O Parlamento Europeu, leva esta semana a Plenário um Relatório de Iniciativa da autoria de uma deputada alemã em que " manifesta a sua preocupação face ao sofrimento dos animais de combate; insta a Comunidade Europeia a pôr fim aos combates de cães, touros e galos através de legislação nacional ou comunitária, conforme for apropriado, e assegurando que as pessoas em causa não recebam qualquer subsídio estatal ou nacional relacionado com as suas actividades".

Consigo perceber que um germânico meta no mesmo saco o cão, o galo e o touro, tratando-os a todos como animais de combate. Por desconhecimento legítimo, acredito que não saiba que o touro bravo nasce e cresce em plena liberdade e que apenas há criadores desta raça porque há touradas. Que não é manipulado geneticamente nem no seu processo de crescimento para ser agressivo e se engalfinhar com um congénere.

Até consigo perceber que maioria dos Deputados Europeus venha a votar favoravelmente uma solicitação destas. Afinal, touradas só as temos em Portugal, Espanha e França e a União tem 25 Estados Membros...

Mas custa aceitar que a câmara representativa de todos os cidadãos europeus e o órgão mais democrático da Europa, por ser eleito por sufrágio universal directo, possa não levar em linha conta um principio fundamental da essência desta União que é o respeito pela diversidade cultural dos Estados Membros.

O Tratado de Amesterdão, de 1997, no anexo relativo ao bem estar e protecção dos animais, consagra o respeito simultâneo "das disposições legislativas e administrativas e os costumes dos Estado membros, nomeadamente em matéria de ritos religiosos, tradições culturais e património regional." E o que é a Tourada senão uma tradição cultural secular de países como França, Portugal ou Espanha!

Barbárie? Para mim, barbárie é por exemplo a criação de frangos que vêm ao mundo e o deixam sem verem uma pena a crescer no seu corpo e saltam num ápice para o prato dos consumidores. A tourada é feita com animais criados em campos a perder de vista que nos 4 ou 5 anos de vida não sofrem qualquer tipo de pressão humana, nem crescem na "engorda" e que são lidados em espaços circunscritos onde só vai quem paga para ver o espectáculo.

Não sei qual vai ser o resultado da votação, mas considero um mau precedente para uma União Europeia, que ainda não conseguiu aprovar uma Constituição que a regule, começar a imiscuir-se em tudo e a anular a diversidade cultural dos seus membros.

JB

3 Comments:

At 11:44 da tarde, Blogger Diogo said...

Olha que bem! Se a União Europeia tiver coragem para fazer aquilo que os políticos portugueses nunca foram capazes de fazer, acho que isso apenas abonará em seu favor. Talvez seja eu que sou um inadaptado cultural no meu próprio país, mas, apesar de português, também acho que as touradas são uma barbárie. E, por acaso, até acho que a maior parte dos portugueses também acha. Talvez seja uma tradição; mas é para isso que temos os políticos: porque as tradições levam gerações a mudar, mas as leis podem mudar de um dia para o outro.

 
At 9:36 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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At 1:02 da manhã, Blogger Popov said...

Este diploma é mau para Portugal? Bem, isso só pode partir de um pressuposto errado: que os portugueses (na sua globalidade) entendem e assumem a tourada como uma expressão cultural do seu país. A isso se chama identidade cultural. O que existe em Portugal é uma ampla tradição de negócio ligada ao sofrimento do animal e que, até agora, não pôde ser posta em causa por falta de coragem política. Porque, na "hora H", cria-se um regime de excepção e ficamos todos felizes! Espero que este diploma ajude a mudar isso.

"Apesar de o animal sofrer, as touradas fazem parte da tradição de séculos" - é o argumento típico. Pois bem, esse argumento levado ao extremo podia levar-nos a defender a escravatura, a superioridade do homem sobre a mulher (and so on).

 

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